Terror gradual, governo conivente e sem final feliz: “Os Escolhidos” é mais honesto que a maioria do gênero

Terror gradual, governo conivente e sem final feliz: “Os Escolhidos” é mais honesto que a maioria do gênero

Os Escolhidos vai surpreendê-lo do início ao fim. Existe um tipo específico de horror que não depende de sustos repentinos para funcionar, depende da erosão gradual da sensação de segurança. Os escolhidos, o filme de ficção científica de 2013 dirigido por Scott Stewart e produzido por Jason Blum, opera precisamente nesse registro. É um filme que começa com anomalias pequenas e vai expandindo o inexplicável até o ponto em que não há saída e que, diferentemente da maioria do gênero, não oferece resolução fácil.

A premissa: o subúrbio como cenário de ameaça

A família Barrett leva uma vida absolutamente comum. Daniel (Josh Hamilton) está desempregado e procura emprego como arquiteto. Lacy (Keri Russell) trabalha como corretora de imóveis. Os dois filhos, Jesse (Dakota Goyo) e Sam (Kadan Rockett), têm os problemas ordinários da adolescência e da infância. É o retrato de uma família de classe média americana que poderia ser qualquer família.

Essa ordinariedade é estratégica. Quando os eventos estranhos começam, pássaros se chocando em massa contra a casa, marcas de violência nos corpos das crianças sem explicação, crises de sonambulismo que ninguém lembra pela manhã, o contraste com o cotidiano banal é o que cria tensão. O horror não chegou de fora; está acontecendo dentro da vida normal da família, e é isso que torna difícil ignorá-lo.

O que distingue os Escolhidos do horror convencional

A maioria dos filmes de invasão alienígena ou de ameaça sobrenatural segue uma estrutura previsível: a família descobre a ameaça, enfrenta incredulidade externa, busca ajuda e eventualmente encontra uma solução, ou morre tentando. Os Escolhidos segue esse roteiro no desenvolvimento, mas recusa o desfecho convencional.

O que o filme apresenta como ameaça não é um inimigo que pode ser derrotado. É um processo, sistemático, frio e aparentemente inevitável, que o governo conhece e escolheu não combater. A conivência institucional que o filme sugere é mais perturbadora do que qualquer monstro específico: a ideia de que as estruturas que deveriam proteger as pessoas simplesmente decidiram que algumas pessoas não valem a proteção.

J.K. Simmons como o especialista

A figura do “especialista marginal que sabe mais do que as autoridades” é um clichê do gênero, mas Os Escolhidos tem a sorte de escalá-lo para J.K. Simmons, um ator que consegue emprestar credibilidade a personagens que deveriam parecer absurdos. Sua cena de exposição, onde ele explica à família Barrett o que está acontecendo e o que não pode ser feito, é o ponto de virada emocional do filme: é o momento em que a esperança de resolução desaparece definitivamente.

Simmons traz ao personagem uma melancolia que vai além da função narrativa. Edwin Pollard não é apenas um informante, é alguém que carrega o peso de saber coisas que ninguém quer ouvir.

O desfecho como escolha narrativa honesta

Sem revelar detalhes específicos: Os Escolhidos termina de uma forma que vai contra o que a maioria dos espectadores espera de um filme de horror de produção mainstream. Essa escolha dividiu o público, há quem considere o final frustrante, e há quem o considere a decisão mais corajosa que o filme poderia tomar.

O argumento para a segunda posição é sólido: um final feliz artificialmente imposto sobre uma premissa tão sombria seria uma traição à lógica interna do próprio filme. Os Escolhidos é honesto sobre o tipo de história que está contando, e honestidade no horror, mesmo quando é desconfortável, é uma qualidade rara.

Streaming gratuito e acesso democrático ao cinema de qualidade

A disponibilização gratuita de filmes premiados e séries de qualidade em plataformas de streaming representa uma mudança estrutural no acesso à cultura audiovisual. Por décadas, assistir a um vencedor do Oscar exigia ir ao cinema quando estava em cartaz, comprar o DVD ou aguardar a transmissão em TV por assinatura, todas opções com custo real associado.

O modelo de streaming gratuito sustentado por publicidade democratizou esse acesso de forma que ainda não foi completamente assimilada pelo público. Filmes como O Discurso do Rei, Dunkirk e John Wick, títulos que definiram o cinema de seus respectivos períodos, estão hoje ao alcance de qualquer pessoa com internet e conta numa plataforma de e-commerce que já usava para outras finalidades.

Para o Brasil especificamente, onde a penetração de smartphones ultrapassou os 80% mas onde o acesso a streaming pago ainda é limitado por questões de renda, essa disponibilidade gratuita tem um impacto cultural concreto: mais pessoas assistindo a mais cinema de qualidade, sem a barreira financeira que tornava esse acesso desigual.

Os Escolhidos marcou a primeira incursão da Blumhouse Productions no subgênero de ficção científica. A produtora, conhecida por horror econômico e eficiente desde Atividade Paranormal, aplicou os mesmos princípios ao sci-fi: orçamento contido, foco em personagens, ameaça sugerida mais do que mostrada. O resultado foi um filme que funcionou bem o suficiente para confirmar que a filosofia de produção da Blumhouse funciona além do horror estrito.